FELICIDADE

Felicidade a prática do bem-estar matthieu ricard síntese elaborada por: Gislaine Maria D’Assumpção a felicidade não chega automaticamente, não é uma graça que a boa sorte pode derramar sobre nós e uma virada do destino nos proporcionar. Ela depende unicamente de nós. Não nos tornamos felizes do dia para a noite, mas graças a um trabalho paciente, realizado dia após dia.

A felicidade se constrói, o que exige tempo e esforço. Para nos tornamos felizes, temos que saber mudar a nós mesmos. A visão da felicidade aqui trazida à luz desafia as noções cotidianas de alegria, constituindo um convincente argumento em favor do contentamento, em vez da busca da diversão; em favor do altruísmo, em vez da saciedade autocentrada. E, além disso, mathieu nos sugere maneiras para cultivar a própria capacidade para ser feliz. Esse termo é um conceito muito mal interpretado. Não se trata de abrir mão daquilo que é bom e belo. Trata-se de desembaraçar-se daquilo que é insatisfatório e mover-se com determinação em direção ao que mais importa.

Isso é uma questão de liberdade e significado: libertar-se da confusão mental e das aflições autocentradas e encontrar o propósito das experiências por meio do insight e da vontade amorosa. Alcançar a felicidade duradoura como modo de ser é uma habilidade que se adquire. Isso requer esforço constante no treino da mente e no desenvolvimento de qualidades como paz interior, atenção plena e amor altruísta. Todo homem quer ser feliz, mas para consegui-lo precisa antes compreender o que é a felicidade. Jean-jacques rousseau o que exatamente é a felicidade? A felicidade não pode se limitar a algumas sensações agradáveis, a um intenso prazer, a uma erupção de alegria ou a um efêmero sentimento de serenidade, a um dia animado ou a um momento mágico que passa por nós no labirinto da nossa existência.

Essas diversas facetas não são suficientes para construir uma imagem , precisa da realização profunda e duradoura que caracteriza a verdadeira felicidade. A felicidade, como será tratada neste texto, é a profunda sensação de florescer que surge em uma mente excepcionalmente sadia. Isso não é meramente um sentimento agradável, uma emoção passageira ou uma disposição de ânimo: é um excelente estado de ser. A felicidade é também uma maneira de interpretar o mundo, pois, se às vezes pode ser difícil transformá-lo, sempre é possível mudar a maneira de vê-lo.

O que devemos entender por realidade? No budismo, essa palavra conota a verdadeira natureza das coisas, não modificada pelos construtos mentais que sobrepomos a ela. Quase sempre acabamos confundindo a felicidade genuína com a mera busca de emoções agradáveis. A ignorância, segundo a compreensão budista, é um estado em que somos incapazes de reconhecer a verdadeira natureza das coisas e a lei de causa e efeito que governa a felicidade e o sofrimento. Em um momento de calma, sozinho, tente descobrir aquilo que realmente faz você feliz.

A sua felicidade decorre principalmente de circunstâncias exteriores? Até que ponto ela acontece devido ao seu estado mental e à maneira pela qual vivencia o mundo? Se a felicidade vem de circunstâncias exteriores, verifique o quanto elas são estáveis, o quanto são frágeis. Se ela vem de um estado mental, reflita sobre as maneiras de cultivá-lo mais intensamente. Um espelho de duas faces: olhar para dentro, olhar para fora buscamos a felicidade fora de nós mesmos quando ela é basicamente um estado de ser. Se fosse uma condição exterior, não estaria nunca ao nosso alcance. Os nossos desejos são ilimitados e o controle que temos sobre o mundo é limitado, temporário e, geralmente, ilusório.

Que hesitação estranha, medo ou inércia nos impedem de olhar para dentro de nós mesmos, de tentar compreender a verdadeira essência da alegria e da tristeza, do desejo e do ódio? O medo do desconhecido prevalece e a coragem para explorar esse mundo interior cessa quando chegamos à fronteira de nosso espírito. Se ao longo dos anos tentarmos com resolução e perseverança dominar os nossos pensamentos no momento em que ocorrem, aplicando antídotos apropriados às emoções negativas e nutrindo as positivas, sem dúvida o nosso esforço trará resultados que no começo da prática terão parecido impossíveis de serem alcançados. A felicidade é um modo de ser, é uma habilidade, mas para desenvolvê-la é necessário aprendizado.

Sente-se na sua postura de meditação e concentre toda a sua atenção num objeto de sua escolha. Pode ser um objeto da sua sala. Cultivar a atenção e a presença mental dessa maneira nos dá uma ferramenta preciosa para todos os outros tipos de meditação. O erro mais comum é confundir o prazer com a felicidade. O prazer, diz um provérbio hindu, “é somente a sombra da felicidade”. É o resultado direto dos estímulos prazerosos no âmbito sensual, estético ou intelectual. A fugaz experiência do prazer depende de circunstâncias. “o prazer é a felicidade dos loucos, enquanto a felicidade é o prazer dos sábios”. Jules barbey d’aurevilly os prazeres tornam-se obstáculos somente quando perturbam o equilíbrio da mente e nos levam à obsessão por gratificações ou a uma aversão a tudo que possa impedi-los. Apesar de ser intrinsecamente diferente da felicidade, o prazer não é inimigo dela.

Tudo depende da maneira como é vivido. O sofrimento pode ser provocado por numerosas causas, sobre as quais às vezes temos algum poder e às vezes nenhum. Essas situações estão além do nosso controle. A infelicidade é completamente diferente, já que é o modo pelo qual vivenciamos o nosso sofrimento. A infelicidade pode de fato estar associada à dor física e moral infligida por circunstâncias exteriores, mas não está essencialmente ligada a ela. Exercício – distinguir entre felicidade e prazer. Traga à sua mente uma experiência passada em que você sentiu prazer físico, com toda a intensidade. Ela trouxe a você uma realização interior duradoura? Perceba o efeito duradouro que essa experiência teve em sua mente e como ela alimenta, ainda hoje, um sentimento de realização. Compare a qualidade desse estado de ser como o anterior, produzido por uma sensação passageira de prazer.

Aprenda a valorizar esses momentos de profundo bem-estar e aspire a encontrar maneiras para desenvolvê-los cada vez mais. A liberdade exterior que conseguiremos depende exatamente do grau de liberdade interior que possamos ter desenvolvido num dado momento. E, se essa é uma visão correta da liberdade, nossa principal energia deve ser concentrada em obter a reforma interior. Mahatma gandhi não podemos negar a existência de sensações agradáveis ou desagradáveis, mas elas têm pouca importância aos olhos da felicidade genuína. A felicidade é um modo de ser, um estado de consciência e de liberdade interior, não há nada que possa nos impedir de atingi-la. Muitas vezes negamos a possibilidade de sermos felizes por acreditarmos que o mundo e a humanidade são fundamentalmente maus. Essa crença deriva em grande medida da noção do pecado original. Segundo o filósofo andré comte-sponville: “o sábio não tem mais nada a esperar ou exigir. Como ele é inteiramente feliz, não precisa de nada. Como não precisa de nada, é inteiramente feliz.

” A prática espiritual pode ser muito benéfica. O fato é que é possível conseguir um treinamento espiritual sério se reservarmos, todos os dias, algum tempo para a meditação. Sempre há, lá no fundo, bem dentro de você, um potencial pronto para desabrochar. É um potencial de bondade amorosa, compaixão e paz interior. Para tanto, comece por conhecer melhor a sua própria mente. Este é o início da meditação. Sente- calmamente, numa postura confortável mas equilibrada. Observe a sua mente, o ir e vir dos seus pensamentos. Deixe-os virem e irem embora, sem tentar impedi-los, mas também sem alimentá-los. No final da prática, reserve alguns momentos para saborear o calor e a alegria que resultam de uma mente mais calma. Se há um caminho para nos li betarmos do sofrimento devemos usar cada momento da vida para encontrá-lo.

Só um tolo quer seguir sofrendo. Não é triste ingerir conscientemente veneno? Vii dalai lama distinguem-se também três tipos e sofrer: sofrimento visível, oculto e invisível. O sofrimento visível é evidente por toda parte. O oculto dissimula-se sob a aparência de prazer, de estar livre de preocupações, na diversão. É o sofrimento da mudança. Somos capazes de identificar o apego ao ego como a causa desse sofrimento? Em geral, não. É por isso que chamamos esse tipo de sofrimento de invisível. Há algum modo de pôr fim ao sofrimento? De acordo com o budismo, o sofrimento sempre estará presente como fenômeno global, no entanto, cada indivíduo tem a possibilidade de liberar-se dele. As quatro verdades do sofrimento o primeiro obstáculo à realização da felicidade consiste em não reconhecer o sofrimento como aquilo que ele é. Há mais de 2.500 anos, sete semanas depois de obter a iluminação sob a árvore bodhi, o buda deu seu primeiro ensinamento no parque das gazelas, perto de benares. Lá, ele ensinou as quatro nobres verdades.

A primeira verdade é a existência do sofrimento. A segunda verdade diz respeito às causas do sofrimento: a ignorância que gera o desejo ardente, a maldade, o orgulho, e muitos outros pensamentos que envenenam nossa vida e a dos outros. Como esses venenos mentais podem ser eliminados, a cessação do sofrimento - a terceira verdade – é, portanto, possível. A quarta verdade é percorrer o caminho que transforma essa possibilidade em realidade. Esse caminho é o processo pelo qual podemos usar os meios possíveis para eliminar as causas fundamentais do sofrimento. É sempre melhor prepara-se para os sofrimentos que estamos sujeitos a encontrar – alguns dos quais são inevitáveis, como a doença, a velhice e a morte – em vez de sermos pegos desprevenidos e afundarmos na angústia. Há vários métodos para atingir esse fim. Um deles é o uso de imagens mentais: outro permite que transformemos a dor, despertando para o amor e a compaixão; um terceiro nos ensina a lidar com o desenvolvimento da força interior.

O poder das imagens para modificar a percepção da dor, a tradição budista utiliza o que a psicologia moderna denominou de imagens mentais. Podemos visualizar, por exemplo, um néctar benéfico, luminoso e que nos acalma, que penetra no centro da dor mais penosa e gradualmente a dissolve nos dando uma sensação de bem-estar. O néctar, então, permeia o nosso corpo todo e a dor diminui. Uma síntese dos resultados publicados em mais de cinquenta artigos científicos demonstrou que, em 85% dos casos, o uso de métodos que envolvem a mente aumenta a capacidade de suportar a dor. Exercício – uso das imagens mentais quando um forte sentimento de desejo, inveja, orgulho, agressão ou ganância tomar conta da sua mente, tente imaginar situações que são fontes de paz. Transporte-se mentalmente para as margens de um plácido lago ou para o cume de uma montanha de onde tenha uma vista muito ampla. Observe as suas tempestades interiores diminuírem e permita que esse sentimento de paz cresça e se desenvolva em sua mente.

Compreenda que, mesmo que as suas feridas sejam profundas, elas não tocam a natureza essencial de sua mente, a luminosidade fundamental da pura consciência. A força da compaixão o segundo método que nos permite lidar com o sofrimento, tanto emocional quanto físico, está ligado à prática da compaixão. A compaixão e a bondade amorosa são as maiores entre todas as emoções positivas, desenvolvê-las aumenta a nossa capacidade de oferecer alívio ao sofrimento dos outros ao mesmo tempo que reduz a importância dos nossos problemas. O desenvolvimento da força interior o terceiro método é o da contemplação. Ele consiste em contemplar a natureza da mente que sofre. Percebemos que, quanto mais tentamos focá-la, mais difusa se torna a definição da dor e dos seus contornos. No final das contas, chegamos a reconhecer que por trás da dor há uma presença consciente, não-corrompida, que não muda e que está além da dor e do prazer; é a mesma consciência que se encontra na fonte de toda sensação e de todo pensamento.

Quando você inspirar, visualize o seu próprio coração como uma esfera brilhante e luminosa. Imagine que você está tomando para si, sob a forma de uma nuvem cinza, a doença, a confusão e os venenos mentais dessas pessoas, e que tudo isso desaparece na luz branca do seu coração, sem restar nada. Isso transformará tanto o seu sofrimento quanto o deles. Não há motivo para pensar que esse processo venha trazer-lhe qualquer peso ou carga. Ao tomar para si e dissolver o sofrimento deles, sinta grande felicidade, sem apego algum. Os véus do ego a confusão mental é um véu que nos impede de ver claramente a realidade, obscurecendo a nossa compreensão da verdadeira natureza das coisas. Dividimos o mundo inteiro em “desejável” e “indesejável”; atribuímos permanência ao que é efêmero e vemos entidades independentes naquilo que é uma rede de relações que se transformam.

Tendemos a isolar aspectos particulares de eventos, situações e pessoas, focalizando apenas essas particularidades. É assim que rotulamos os outros como “inimigos”, “bons”, “maus”, e assim por diante, e consideramos essas atribuições permanentes. O genuíno destemor surge com a confiança de que seremos capazes de reunir os recursos interiores necessários para lidar com qualquer situação que surja à nossa frente. O que fazer com o ego? Dissipar a ilusão do ego é libertar-se de uma vulnerabilidade fundamental. A verdade é que o sentimento de segurança que deriva dessa ilusão é muito frágil. A confiança autêntica nasce do reconhecimento da verdadeira natureza das coisas, e de uma tomada de consciência da qualidade fundamental da nossa mente, que é também o nosso potencial para transformação e florescimento – chamada, no budismo, de natureza búdica, presente em todos os seres.

Esse reconhecimento confere uma força serena que não é ameaçada nem pelas circunstâncias exteriores nem pelos medos internos. Trata-se de uma liberdade que transcende a fascinação e a ansiedade. Uma análise rigorosa nos forçará a concluir que o eu não reside em nenhuma parte do corpo. Ele não está nem no coração, nem no peito, nem na cabeça. O budismo, portanto, conclui que o eu é apenas um nome pelo qual designamos um continuum, como ao darmos a um rio o nome de ganges ou mississípi. Esse continuum certamente existe, mas de modo puramente convencional e fictício. É inteiramente desprovido de existência autônoma. A desconstrução do ego o conceito de identidade pessoal tem três aspectos: o eu, a pessoa e o ego. Esses três aspectos não são fundamentalmente diferentes um do outro, mas refletem as diferentes maneiras de nos apegarmos à percepção de que temos uma identidade pessoal. A única solução para este dilema é considerar o ego como uma designação mental ou verbal ligada a um processo dinâmico, a um conjunto de relações mutáveis que integram percepções do ambiente, sensações, imagens mentais, emoções e conceitos. O ego não passa de uma ideia. As coisas não são nem tal como nos parecem existir nem totalmente inexistentes: como ilusões, aparecem sem ter qualquer realidade última. Eis como o buda ensinou isto: como a estrela cadente, a miragem, a chama, a ilusão mágica, a gota de orvalho, a bolha na água, como o sonho, o relâmpago, ou uma nuvem – considere assim todas as coisas.

Abandonar a fixação na nossa imagem pessoal e deixar de dar tanta importância ao ego significa ganhar uma enorme liberdade interior. Isso permite que abordemos todos os seres e todas as situações com naturalidade, benevolência, força de espírito e serenidade. Não esperando ganhar e sem o temor de perder, somos livres para dar e receber. Agarrando-nos ao confinado universo do ego, temos a tendência a nos preocupar unicamente conosco. A menor contrariedade nos perturba e nos desencoraja. Somos obcecados pelos nossos sucessos, nossas derrotas, nossas esperanças e nossas inquietudes, sendo assim quase impossível alcançar a felicidade. Enquanto o sentimento de que o ego é importante detiver as rédeas do nosso ser, jamais conheceremos uma paz duradoura. A própria fonte da dor permanecerá intacta no mais profundo de nós e nos privará da mais essencial das liberdades. Quando os pensamentos se tornam nossos piores inimigos quando somos atingidos pela morte de alguém que amamos, perturbados por um colapso, dominados pelo fracasso, às vezes, sentimos que a vida como um todo está entrando em parafuso. Não parece haver nenhuma saída segura. A tristeza prevalece na mente como uma mortalha. “basta que apenas uma pessoa nos deixe, e é como se não houvesse ninguém no mundo” na maioria das vezes não são os eventos externos, mas a nossa própria mente e as emoções negativas que nos tornam incapazes de manter a estabilidade interior, arrastando-nos para baixo.

Os pensamentos podem ser os nossos melhores aliados ou piores inimigos. “essas séries de pensamentos e estados mentais estão sempre mudando, como a forma das nuvens ao vento, mas damos uma grande importância a elas. Um homem idoso observando as crianças brincarem sabe muito bem que o que elas fazem tem pouca consequência. Ele não se sente nem eufórico nem perturbado com o que acontece, ao passo que as crianças levam tudo muito à sério. Somos exatamente como elas”. Quando uma emoção dolorosa nos atinge, a coisa mais urgente a fazer é olhar para ela de frente e identificar os pensamentos imediatos que a provocaram e a alimentaram. Fixando o nosso olhar interior na emoção em si, podemos gradualmente dissolvê-la, como a neve sob o sol. E ainda mais: uma vez que a força dessa emoção tenha se enfraquecido, as causas que a provocaram parecerão menos trágicas e teremos ganhado a oportunidade de nos libertar do círculo vicioso dos pensamentos negativos. Com esse método, quando um pensamento surgir, tente ver de onde ele vem; quando desaparecer, pergunte-se para onde ele foi. Nesse momento em que os pensamentos passados silenciaram e os futuros ainda não surgiram, você pode perceber uma consciência pura e luminosa, que ainda não foi adulterada pelos seus construtos conceituais. Por meio de experiências diretas aos poucos você compreenderá o que o budismo quer dizer com a natureza da mente.

Exercício – quando você se sentir sobrepujado pelas suas emoções imagine-se em um barco, navegando por um mar tempestuoso, com ondas volumosas do tamanho de casas. Cada onda é maior e mais assustadora do que a anterior. O seu barco está a ponto de ser engolido por elas, e a sua própria vida depende da sua capacidade de avançar ou recuar poucos metros nesses muros de água. Imagine-se, então, observando a mesma cena de um avião, que voa a grande altitude. Desse ponto de vista, as ondas parecem formar um delicado mosaico azul e branco, mal se movendo na superfície da água. Dessa altura, no silêncio do espaço, os seus olhos veem esses padrões quase imóveis, e a sua mente mergulha em um céu claro e luminoso. As ondas de raiva e obsessão parecem muito reais, mas lembre-se que elas são meras construções da sua mente; surgem, mas logo desaparecem novamente. Por que ficar no barco da ansiedade? Torne a sua mente vasta como o céu, e descobrirá que as ondas das emoções aflitivas perderam toda a força que você atribuía a elas. Evitar jogar a culpa nos outros é tentador jogar a culpa sistematicamente no mundo e nas outras pessoas. Quando nos sentimos ansiosos, deprimidos, mal-humorados, invejosos ou emocionalmente exaustos, logo jogamos a responsabilidade no mundo externo: tensões com colegas de trabalho, discussões com a esposa. Culpar os outros pelos nossos tormentos e ver neles os únicos responsáveis por nosso sofrimento torna nossa vida miserável. Se as paixões são os grandes dramas da mente, as emoções são os seus atores. Durante toda nossa vida, atravessando nosso espírito como um rio tumultuado, elas determinam incontáveis estados de felicidade e infelicidade. Contentar-se com a eliminação da tristeza, da depressão ou da ansiedade não garante automaticamente a felicidade e a alegria. A supressão de uma dor não conduz necessariamente ao prazer. Portanto, é preciso não só erradia as emoções negativas como também desenvolver as positivas. Essa análise, realizada muitas e muitas vezes, é a preliminar indispensável para a transformação de um estado mental perturbado.

Três processos mentais considerados como os “venenos” mentais básicos: o desejo, no sentido de “sede”, ânsia, avidez que atormenta; o ódio, desejo de ferir, de fazer sofrer; e a ilusão, que deforma a nossa percepção da realidade. O budismo geralmente acrescenta a esses três estados mentais o orgulho e a inveja; juntos eles constituem os cinco venenos maiores, aos quais se associem cerca de sessenta estados mentais negativos. Exercício – acalmar a mente e olhar para dentro sente-se em uma posição confortável. O seu corpo deve permanecer em uma postura ereta, mas não tensa, mantenha os olhos semicerrados. Respire durante cinco minutos, prestando atenção no entrar e sair do ar que acontece por meio da sua respiração. Sinta que os pensamentos caóticos aos poucos vão se aquietando. Quando os pensamentos surgem, não tente nem bloqueá-los nem fazer com que se multipliquem.

Simplesmente continue a observar a sua respiração. Então, com um profundo sentimento de apreço, pense no valor da existência humana e no seu potencial extraordinário, pronto para desabrochar. Perceba, também, que esta vida preciosa não durará para sempre e que é essencial fazer dela o melhor uso possível. Examine sinceramente aquilo que é mais importante, para você, na vida. O que você precisa atingir, ou o que deve descartar, para conseguir o bem-estar autêntico e viver uma existência plena de significado? Quando os fatores que contribuem para a felicidade verdadeira estiverem claros para você, imagine que eles desabrocham, florescendo na sua mente. Decida-se alimentá-los dia após dia. Finalize a meditação fazendo com que pensamentos de bondade pura envolvam todos os seres vivos. O budismo ensina vários métodos para conseguir essa “familiarização”. Os três principais são os antídotos, a liberação e a utilização.

O primeiro consiste em aplicar um antídoto específico para cada emoção negativa. O segundo nos permite desembaraçar ou “liberar” a emoção quando, ao olhar diretamente para ela, conseguimos dissolvê-la assim que surge. O terceiro método consiste em usar a força natural de cada emoção como um catalisador para a transformação interior. Liberar as emoções a experiência da raiva é como uma febre alta. É uma condição temporária, e você não precisa se identificar com ela. Quanto mais você olhar para a raiva desta maneira, mais ela se evaporará diante dos seus olhos, como gelo sob os raios de sol. De onde vem a raiva? Como ela se desenvolve? Para onde ela vai quando desaparece? O que podemos dizer com certeza é que ela nasce na mente, permanece na mente o tempo que durar e, por fim, é também na mente que ela se dissipa. Exercício – liberação direta das emoções traga à sua mente uma situação em que você sentiu muita raiva e tente reviver essa experiência. Quando a raiva surgir, focalize sua atenção nela mesma, em vez de olhar para o objeto da raiva. Não se deixe assimilar por essa raiva, mas olhe para ela como se fosse um fenômeno separado. Ao manter-se apenas nessa observação da raiva em si mesma, veja que ela pouco a pouco se dissolve sob os seus olhos. Uma pessoa possuída por um ódio feroz ou uma inveja obsessiva não pode, em sã consciência, ser considerada alguém que tem uma mente sadia, mesmo que não seja candidata aos tratamentos psiquiátricos. Como essas emoções estão integradas à nossa vida cotidiana, a importância e a urgência de lidar com elas parecem não estar tão claras quanto deveriam. Como resultado, a ideia de treinar a mente não figura entre as preocupações que pressionam o homem moderno, como o trabalho, as atividades culturais, os exercícios físicos e o lazer.

O desejo é importante, assim, estabelecer uma distinção entre o desejo, que é essencialmente uma força cega, e a aspiração, que é precedida por uma motivação e por uma atitude. Se essa motivação é ampla e altruísta, pode ser fonte das maiores qualidades e realizações humanas. O budismo não recomenda a abolição dos desejos simples nem das aspirações essenciais, mas a obtenção da liberdade no que tange aos desejos escravizadores, aqueles que nos trazem uma multidão de tormentos inúteis. O ódio “o ódio é o inverno do coração” victor hugo de todos os venenos mentais, o ódio é o mais nefasto. Ele é uma das principais causas da infelicidade e também a força que motiva toda violência, todo genocídio, todos os atentados à dignidade humana. Exercício – meditar sobre o amor e a compaixão. Meditar é uma forma de aprender a vivenciar as coisas de uma maneira nova.

Traga à sua mente, de maneira realista, o sofrimento que atormenta uma pessoa de que você goste muito. Logo você sentirá vontade de fazer algo para diminuir esses sofrimentos e remover as suas causas. Deixe que esse sentimento de compaixão preencha por completo a sua mente e o acalente por algum tempo. Estenda, então, esse mesmo sentimento a todos os seres, percebendo que cada um deles aspira a ser livre do sofrimento. A inveja estranho sentimento, a inveja. Sentimos inveja da felicidade que os outros têm e certamente não da sua infelicidade. A inveja não tem o lado atraente do desejo, não vem disfarçada de justiceira como a raiva, não se enfeita com ornamentos sombrios como o orgulho e nem mesmo é preguiçosa como a ignorância. Não importa sob que luz seja examinada, sempre surge como algo detestável. Eis o retrato que voltaire faz dela: a sombria inveja, de tons pálidos, lívida, seguindo, cambaleante, a suspeita que a guia.

A inveja e o ciúme derivam da incapacidade fundamental de se regozijar com a felicidade ou o sucesso so outro. O grande salto em direção à liberdade “para um homem sobrecarregado, oprimido e que por muito tempo andou pelo mundo do sofrimento, que alívio é desembaraçar-se de seu fardo pesado e inútil”. Longchen rabjam rimpoche ser livre é ser mestre de si mesmo. Para muita gente, essa maestria está ligada à liberdade de ação, de movimento e de opinião, e à oportunidade de atingir as metas estabelecidas para si mesmo. Essa convicção situa a liberdade principalmente fora de nós mesmos, sem tomar consciência da tirania dos pensamentos. A liberdade interior é, em primeiro lugar, libetar-se da ditadura do “eu” e do “meu”, do “ser” cativo e oprimido. Saber encontrar o essencial e não se inquietar com aquilo que é acessório traz profundo sentimento de contentamento, sobre o qual as fantasias do eu não têm nenhum poder. “aquele que experimenta um contentamento.

Dessa maneira, ser livre significa se emancipar das aflições que dominam e obscurecem a mente. Significa tomar a vida na nossa própria mão, em vez de abandoná-la às tendências criadas pelo hábito e pela confusão mental. Liberdade, aqui, significa ter o leme nas mãos e velejar na direção que escolhemos. Os meandros da indecisão “não se pode costurar com uma agulha de duas pontas”. Provérbio tibetano quando nos preocupamos excessivamente conosco, ficamos divididos entre a esperança e o medo. A ansiedade que certas pessoas vivenciam talvez provenha de uma falta de direção na existência, de não terem tomado consciência do potencial interior para a mudança que têm dentro de si.

O paradoxo da renúncia a renúncia não consiste em privar-se daquilo que nos traz alegria e felicidade – isso seria absurdo. Renunciar é ter a ousadia e a inteligência de examinar aquilo que costumamos considerar prazeres para determinar se eles realmente nos trazem bem-estar. Livre do passado, livre do futuro a liberdade interior nos permite saborear a lúcida simplicidade do momento presente, livre do passado e emancipado do futuro. Libertar-nos da invasão das memórias do passado não significa que sejamos incapazes de tirar lições úteis da própria experiência. Libertar-nos do medo do futuro não nos torna incapazes de nos aproximarmos dele com lucidez, mas nos salva de atolar em tormentos inúteis. Para se desapegar de alguma coisa, primeiro você deve ter claras em sua mente quais são as vantagens da renúncia e sentir uma profunda aspiração de se liberar daquilo a que está prestes a renunciar.

Feito isso, a renúncia será vivida como um ato de liberação, não como uma obrigação dolorosa. “a nossa vida é desperdiçada em detalhes... Simplifique, simplifique” david henry thoteau renúncia envolve simplificar os nossos atos, a nossa fala e os nossos pensamentos para livrar-se do supérfluo. Simplificar a fala significa diminuir o fluxo de palavras inúteis que saem de nossa boca. É, acima de tudo, abster-se de dirigir aos outros, observações negativas ou danosas, de lançar flechas que atingem o coração alheio. A simplicidade é liberdade, leveza, alegria, transparência. Há algo mais simples do que a simplicidade? Mais leve? A simplicidade é a virtude dos sábios e a sabedoria dos santos” andré comte-sponville ser livre quer dizer também ser capaz de seguir um caminho de transformação interior. Para este fim, é preciso vencer não só a adversidade exterior, como também, e mais ainda, os nossos inimigos interiores: a preguiça, a dispersão mental e todos os hábitos que nos distraem ou fazem com que adiemos a nossa prática espiritual. A felicidade aumenta com o envolvimento social e a participação em organizações beneficentes ou de voluntários, com a prática de esportes ou música, e também quando as pessoas pertencem a clubes de lazer.

Ela está estreitamente ligada à manutenção e à qualidade das relações pessoais. A comparação repetida da nossa situação com a de outros é um tipo de doença da mente que traz muita insatisfação e frustração, totalmente desnecessárias. De acordo com ed diener: “parece que a maneira como as pessoas percebem o mundo é muito mais importante para a felicidade do que as circunstâncias objetivas”.

Felicidade e altruísmo o homem mais feliz é aquele que não tem, em sua alma, nenhum traço de maldade. Platão o trabalho de pesquisa feito por martin seligman, pioneiro da psicologia positiva, mostra que a alegria que acompanha um ato de bondade desinteressada produz uma profunda satisfação. Felicidade e humildade “se você mantiver sua mente humilde, o orgulho se dissipará como a névoa da manhã.” Dilgo khyentse rimpoche a humildade é um valor esquecido no mundo contemporâneo. O conceito de humildade é muitas vezes associado ao desprezo por si mesmo, à falta de confiança nas próprias capacidades. Isso é subestimar consideravelmente os benefícios da humildade. “poucas pessoas são suficientemente sábias para preferir a crítica útil ao elogio traiçoeiro”. “o melhor ensinamento é aquele que desmascara as nossas faltas escondidas”. A humildade favorece a força do caráter: a pessoa humilde toma decisões tendo por base aquilo que considera certo, justo, sem se inquietar com a sua própria imagem ou a opinião dos outros.

Otimismo, pessimismo e ingenuidade duas maneiras de ver o mundo o pessimista, ao contrário, pensa que os seus problemas vão durar (“este é o tipo de coisa que não se resolve sozinha”), comprometendo tudo o que ele empreende e que escapa ao seu controle (“o que você quer que eu faça?). Ele imagina ter em si algum tipo de imperfeição determinante (“não importa o que eu faça, é sempre a mesma coisa”). O pessimista antecipa o desastre e torna-se uma vítima crônica da ansiedade e da dúvida. Mal-humorado, irritável e nervoso, não tem confiança nem no mundo nem em si mesmo, e sempre espera ser intimidado, abandonado e ignorado. O otimista, por outro lado, acredita que é possível realizar as suas aspirações e que, com paciência, determinação e inteligência, chegará lá. E o que acontece é que, quase sempre, ele chega mesmo. Há vários tipos de preguiça, mas eles podem ser agrupados em três principais.

O primeiro e mais óbvio é não querer nada senão comer bem, dormir bem e fazer o menos possível. O segundo, o mais paralisante de todos, leva-nos a abandonar a corrida antes ainda de ser dada a largada. O terceiro, o mais pernicioso, consiste em saber o que de fato importa na vida, mas sempre deixar o essencial para mais tarde, dedicando-se a mil outras coisas de menor importância. Em síntese, ao ouvir o ranger de uma porta, o otimista pensa que ela está se abrindo, e o pessimista, que ela está se fechando. É esse potencial, afinal, que dá sentido à vida humana. O pessimismo definitivo consiste em pensar que a vida, como um todo, não vale a pena ser vivida.

O otimismo definitivo, por sua vez, consiste em compreender que cada momento que passa é um tesouro, tanto na alegria quando na adversidade. Exercício – vivenciar a mesma situação através dos olhos do otimismo e do pessimismo tempos dourados, tempos cinzentos, tempo perdido. O tempo é o nosso bem mais precioso torna-se essencial para a busca da felicidade. Para o meditador, o tempo lhe permite olhar com clareza para si mesmo, a fim de compreender o seu mundo interior e redescobrir a essência da vida.

São os tempos dourados que, apesar da aparente inatividade, permitem que ele desfrute completamente do momento presente e desenvolva as qualidades interiores que lhe tornarão possível ajudar melhor os outros. Além do tédio e da solidão o tédio é a aflição daqueles que não sabem o valor do tempo. Já os que compreendem o inestimável valor do tempo usam cada intervalo das suas atividades diárias e estímulos exteriores para experenciar a deliciosa clareza e serenidade do momento. Para estes não há tédio, a mente não entra nesse estado de aridez e secura.

Exercício – prática do “caminhar atento” estas instruções são do mestre budista vietnamita thich nhat hahn: “andar somente pelo prazer de andar, livre e firmemente, sem nos apressarmos. Estamos presentes em cada passo que damos. Ouça os passarinhos, delicie-se com a brisa suave. Caminhemos como pessoas livres, sentindo os nossos passos ficarem cada vez mais leves com o nosso andar. Apreciemos cada passo que damos.” A ética como ciência da felicidade “não é possível viver feliz sem ter uma vida bela, justa e sábia, nem ter uma vida bela, justa e sábia sem ser feliz.” Epicuro que critério usar para qualificar um ato como bom ou mau? A ética budista não é somente um modo de agir, mas um modo de ser. O ser humano dotado de bondade amorosa, compaixão e sabedoria agirá eticamente de modo espontâneo porque é bom em seu coração.

No budismo, um ato é antiético se o seu objetivo é causar sofrimento, e ético se visa trazer bem-estar genuíno para os outros. A visão do budismo é totalmente diferente. O mal não é um poder demoníaco exterior a nós mesmos, e o bem não é um princípio absoluto independente de nós. Tudo se passa em nossa mente. A felicidade na presença da morte lembrar-se da morte para enriquecer cada instante da vida a maneira como vemos a morte tem um impacto considerável na nossa qualidade de vida. Aceitar a morte como parte da vida serve de estímulo para a diligência e para evitar que desperdicemos o nosso tempo com distrações vãs. Alguém que usou cada segundo da sua vida para se tornar uma pessoa melhor e para contribuir para a felicidade dos outros, pode legitimamente morrer em paz. Aonde leva o caminho todos, ou quase todos, estão interessados na felicidade.

Mas quem se interessa pela iluminação? Iluminação é o nome dado pelo budismo ao estado de liberdade última que vem com o perfeito conhecimento da natureza da mente e do mundo dos fenômenos. A divisão entre sujeito e objeto desapareceu na compreensão da interdependência de todos os fenômenos. Por consequência, obteve-se um estado de não-dualidade, que está além das maquinações do intelecto e é invulnerável a quaisquer pensamentos aflitivos. O budismo diz que todos nós nascemos completos, já que cada ser tem dentro de si um tesouro que só nos pede para ser revelado. Mas isso não acontece por si. Olhando com os olhos de uma sabedoria, que é ainda mais infinita do que o céu que tudo abrange, os fenômenos do samsara e do nirvana se tornam espetáculos deslumbrantes. Nessa dimensão de luz, não é necessário nenhum esforço, tudo acontece por si, natural e serenamente. Alegria absoluta. Um testemunho final posso dizer, sinceramente e sem ostentação, que sou um homem feliz.

O florescimento que sinto agora, a cada momento da minha existência, foi construído ao longo do tempo, e em condições propícias à compreensão das causas da felicidade e do sofrimento. Meu desejo mais profundo é que as idéias apresentadas neste livro possam servir como luzes, ainda que tênues, no caminho da felicidade transitória e definitiva para todos os seres.