ORIENTAÇÃO PSICOLÓGICA

ORIENTAÇÃO PSICOLÓGICA PARA QUEM TENHA (OU VENHA A TER) PACIENTES TERMINAIS EM CASA - Gislaine M. D’Assumpção

Em  nossa experiência de atendimento ao Paciente Terminal, sentimos que a família de tais pacientes precisa tanto de orientação e apoio como eles próprios.

Quando uma pessoa adoece gravemente, a família de um modo geral entra em pânico, sente-se perdida, surgem questões prementes e práticas como:

Devemos contar a ele a gravidade da doença ou esconder?

Posso demonstrar meus sentimentos perto dele?

Posso chorar, ou tenho que colocar uma máscara de otimismo para ajudá-lo?

Tenho medo de não saber responder as perguntas que ele me faz.

Não sei o que fazer.

E várias outras questões. Vamos colocar algumas orientações para a família nestas circunstancias.

A primeira questão é geralmente é: dizer ou não à pessoa que ela está com uma doença terminal.

O meio médico se divide quanto a isto, alguns médicos acham que se deve contar e outros, que não. 

Em nossa pratica percebemos que toda pessoa portadora de uma doença grave sabe o que está acontecendo com ela. 

A nossa orientação é a de respeitar o doente dentro de seus direitos. Se ele pergunta e quer saber o que se passa com ele, é um direito seu, que lhe seja revelada a verdade. 

Quando isto ocorre, vai provocar uma reação emocional forte e a pessoa entra naquele processo descrito anteriormente das fases de negação, raiva, negociação, interiorização e aceitação. 

Se não dizemos a pessoa, com honestidade, o que se passa, este processo é bloqueado, ela para em alguma fase, o que vem dificultar para  a pessoa na hora da morte, levando a um sofrimento desnecessário. 

Quando colocamos para uma pessoa que ela está com uma doença grave, devemos deixar bem claro que ninguém no mundo pode afirmar com certeza absoluta que ela vai morrer em pouco tempo. Isto é muito relativo, pois nós mesmos podemos morrer antes dela. 

Na literatura médica existem casos descritos de pessoas totalmente sem condições de vida que se recuperam. Pessoas que achamos impossível viver mais alguns meses, apresentam uma sobrevida de anos (para não falar nos casos de morte clinica descritos acima). Portanto é importante que a pessoa esteja consciente de que é portadora de uma doença, a qual possivelmente vai levá-la à morte, mas que ela deve fazer tudo o que estiver ao seu alcance para lutar pela vida, ao mesmo tempo que trabalha o seu medo da morte.

Temos constatado em nossa prática que a pessoa nestas condições é portadora de dois sofrimentos: o físico e o emocional, sendo que este último agrava o primeiro.

Trabalhando o medo da morte, eliminamos em grande parte o sofrimento emocional e a pessoa apresenta uma sensível melhora em seu estado geral. 

É um alivio muito grande, a pessoa poder falar com a família sobre seus medos, seus sentimentos, e é de grande ajuda quando a família está preparada para ouvir.

Se a família faz sua opção por esconder do paciente o que ele tem, começa um interminável teatro, de uma parte e de outra. Pois a pessoa nestas condições desenvolve uma sensibilidade muito maior do que a que ela tem normalmente, ela vai perceber a mentira, as contradições, e entra no esquema do “faz de conta que tudo está bem”.

Com isto ela reprime seus sentimentos, o que provoca um agravamento de seu estado geral. O paciente fica atento a uma troca de olhar dos familiares, a uma contradição, a um murmúrio, a uma mudança de tom de voz...

Por tudo isto, somos a favor de que se diga a verdade. Este momento é um momento muito profundo para todos da família, é um momento de união e apoio mútuo. 

Todos sofrem, e se as pessoas da família se unem para viver este momento com sinceridade, as coisas se tornam bem mais fáceis.

Queremos dizer com isto, que se a família está triste e o doente também, podem e devem chorar juntos. Ao contrario do que se pensa, ao invés de agravar o estado da pessoa, em nossa experiência vemos que, com isto ocorre um alivio com conseqüente melhora do estado geral da pessoa. 

A família deve procurar ler livros sobre o assunto, ter conhecimento das fases, para facilitar para a pessoa que está vivendo o problema. Os próprios familiares passam pelas fases, assim como o médico assistente.

É comum a família se preocupar porque a pessoa está negando a doença, ou está revoltada, ou deprimida, ou apática, sendo que todos estes sentimentos fazem parte do processo e devem ser vistos como uma caminhada para se chegar à aceitação. 

O importante é que a pessoa viva plenamente cada fase. Se está com raiva, a família deve respeitar e deixar que a pessoa expresse esta raiva. Geralmente ela fica agressiva com os médicos e familiares. A família deve compreender que estas agressões não são pessoais, mas fazem parte do quadro. 

A família deve estar ali presente, sem interferir no processo. Se a pessoa está negando ou com raiva, não se deve contestá-la, tentando faze-lo mudar de atitude. 

A própria pessoa vai caminhando para uma harmonia e paz interna. 

A pessoa que está imobilizada por uma doença, sente-se à parte da vida familiar. 

Ela não participa mais da rotina da família, despertando nela sentimentos de rejeição e desconfiança. A família deve evitar ficar conversando em voz baixa com as visitas, na porta do quarto. 

Evitar acompanhar a visita até a porta e demorar, deixando o doente sozinho. 

Quem está doente logo faz a fantasia de que estão falando sobre ela e de sua doença, de algo que ela não pode saber. 

Deve-se sempre colocar a pessoa a par do que está acontecendo em casa, dentro do possível.

Em outros países, onde a Tanatologia já é uma especialidade bem aceita, coloca-se o doente na sala e não no quarto, para que ele esteja participando de tudo. 

Nestes momentos, bem no final, a vida da família geralmente gira em torno daquela pessoa, e tudo deve ser feito no sentido de lhe dar apoio, conforto e segurança, neste momento tão importante que é a passagem para uma nova vida, um verdadeiro renascimento. 

Deve-se deixar as crianças conviverem com a pessoa doente,  pois será bom para ambos. Para a pessoa doente, a criança leva energia e vida, para a criança ela estará aprendendo a conviver com este lado da vida, de doença e dor. Quando é negada à criança estas vivencias no sentido de poupa-las, na vida adulta ela não saberá lidar com sofrimento e perdas. 

Todas estas orientações devem ser utilizadas dentro de um bom senso e sensibilidade por parte da família. 

É claro que não se vai fazer reuniões barulhentas ao lado de uma pessoa que precisa de silencio e tranqüilidade. 

As crianças devem ficar com o doente o tempo que ele quiser e dentro de uma solicitação que deve partir dele próprio, respeitando os seus sentimentos. 

É o momento para a família falar dos sentimentos mais profundos, não deixando uma pessoa partir antes de lhe dizer o quanto ela é importante e o quanto a família a quer bem.

Em nossas vidas dois momentos se destacam em importância e profundidade, o nascimento e a morte. 

Nascemos só e morremos só. Estarmos rodeados pelo carinho e apoio da família, é de grande ajuda, apesar de que o momento mesmo é pessoal e temos de passar por ele sozinhos.  

O que se pode fazer nesta circunstancia é ajudar a pessoa e a seus familiares, a viver esta experiência com tranqüilidade, expressando seus sentimentos, sua dor, seus medos, seu amor.

E quando chegar o momento da partida, a pessoa parte em paz e os que ficam, ficam em paz. 

Isto não quer dizer que eliminamos o sofrimento. Toda perda leva a sofrimento, mas a maneira como lidamos com este sofrimento é diferente. Fica a dor da ausência física, e ao mesmo tempo a alegria do amor plenamente vivido. 

 

CONCLUSÃO

O trabalho com o medo da morte tem demonstrado sua importância especialmente com os pacientes terminais.

É importante ressaltar que “Terminais” somos todos nós, pois não sabemos quando vamos “terminar” este nosso ciclo, isto pode ocorrer a qualquer momento. 

Este trabalho não deve ser restrito àqueles que estão numa confrontação direta com a morte. Deve-se estender a todos aqueles que querem lutar por uma melhor qualidade de vida. 

Dentre as mudanças ocorridas em nossa época uma das mais importantes é esta nova concepção da morte, como um renascimento para uma dimensão cósmica. 

 

SUMÁRIO

A autora trabalha na área de Tanatologia, que é um dos aspectos da Psicologia Transpessoal e que possui recursos que permite trabalhar o medo da morte, preparando assim melhor as pessoas para a vida. 

Este trabalho tem sido de suma importância com pacientes terminais, mas é muito mais abrangente, fazendo parte da nova mentalidade que vem despontando em nossos dias. 

Diante desta nova visão, morte não existe como um fim, é vista como uma mudança de estado de consciência, um renascimento, uma volta ao Cosmos, de onde viemos, onde estamos e para onde voltaremos.