PORQUE ME TORNEI UMA TERAPEUTA

Cap. Do Livro do livro: MEUS AMIGOS TERAPEUTAS – Pierre Weil

INTRODUÇÃO - O convite do professor Pierre Weil para escrever um capítulo deste livro me pegou de surpresa por várias razões. Primeiro, pela recomendação de falar da minha pessoa como terapeuta e da minha trajetória profissional. Segundo, porque terapeuta falar de si é o oposto do que aprendemos nos bancos da faculdade.

Esta idéia me pareceu genial e só poderia vir de uma pessoa especial como o professor e amigo Pierre Weil. Agradeço a ele o desafio proposto de percorrer os labirintos da minha infância novamente. Foi muito prazeroso e se não fosse o seu pedido, talvez eu não tivesse oportunidade de fazer esta viagem maravilhosa.

 

Sou de Minas Gerais, sou “caipira da roça”, amo a natureza e me orgulho de ser “caipira”, pois tenho a pureza, a simplicidade e a alegria de não ter deixado morrer dentro de mim a esperança e a crença em um mundo melhor. 

Convido vocês a imaginarem que estão numa casa bem mineira, numa cozinha grande, com fogão a lenha e, ao calor do fogo, vamos contar alguns “causos”, começando pela minha infância. É claro que não pode faltar broa de fubá quentinha, pão de queijo e café cheiroso.

 

Meus Amigos Terapeutas

Nome da Terapia: Terapia Evolutiva

História da sua Vida – Nascimento.

 

Nasci em Belo Horizonte, sob o signo de Peixes e ascendente em Leão. Meus pais, muito jovens ainda, iniciavam a vida com dificuldades financeiras e eram pessoas boas, simples, gostavam de ler romances e eu, a partir dos dez anos de idade, lia todos depois que eles já o haviam feito. Os primeiros livros que li, eram de uma coleção de romances da Revolução Francesa que se chamava O Colar da Rainha, esta coleção tinha doze volumes. Em minha casa era hábito comentar sobre tais leituras. Certamente veio daí o meu gosto pelo estudo.

Ainda muito pequena, nos mudamos para Ouro Preto onde ficamos por quatro anos. Nesta época, meu pai era bancário. Minha infância foi um paraíso, vivia solta nos quintais das casas onde morei no interior das Minas Gerais, em cima das árvores, explorando os porões das casas com as amigas de minha idade. 

Toda tarde, já à noitinha, nós três, meu pai, minha mãe e eu, íamos dar uma volta. Eu ia ao meio deles, mais pulando do que andando, eles me seguravam pelas mãos e eu ia balançando e, raras vezes, andando. Meu pai era ousado, era do time dos “esquisitos”, pois eu ouvia os adultos dizerem que ele era sem juízo, a falta de juízo era comigo. Fui filha única até os sete anos, neste período, dos quatro aos sete anos, em que vivi em Ouro Preto, nós dois andávamos muito pelas ruas da cidade tão cheias de histórias e memórias, onde existem muros de pedra que começam baixos e vão ficando altos... altos... até atingirem dois a três metros. Eu ia andando pelos muros até chegar à parte mais alta e meu pai, lá em baixo, abria os braços e dizia: - Pula! Juntava gente em volta, todos horrorizados diante da possibilidade de uma queda. Eu não hesitava, pulava confiante. Nunca cai, ele sempre me amparava.  Sou muito grata a ele, pois foi aí que aprendi a não ter medo de me lançar e confiar. 

Periodicamente, íamos passear em Belo Horizonte onde moravam meus parentes paternos ou em Itabirito, onde moravam os parentes maternos, duas famílias amorosas que me passaram muitos ensinamentos. Íamos de trem de ferro, Maria Fumaça mesmo. Para mim, aquela máquina possante que bufava e soltava fumaça era o máximo do poder, que me fascinava e me assustava ao mesmo tempo. O trem parava nas estações e, quando partia, não tinha jeito de parar novamente. Meu pai sempre descia para tomar um cafezinho, minha mãe e eu ficávamos no vagão. Como ele era muito brincalhão, se escondia e o trem começava a apitar, dando sinal de que ia partir, eu ficava cada vez mais ansiosa com medo dele ficar para trás. O medo ia aumentando, chegava ao desespero, o trem partia e nada do meu pai. Eu chorava, chorava e depois de certo tempo, ele aparecia todo sorridente. Eu vivia da agonia ao êxtase. Isto me ensinou a suportar os momentos difíceis da vida, confiando que depois do caos, vem sempre o cosmo. Aceitei desde cedo esta lei universal, o que tem me ajudado muito na vida. Cosmo e Caos são duas forças que caminham juntas no universo, veja o Caos no Cosmo e o Cosmo no Caos, não resista, dance com estas duas forças e serás feliz. 

Minha mãe era costureira, tinha muita habilidade manual, fazia coisas lindas. Aprendi com ela a fazer tricô aos cinco anos de idade, fazia cachecóis sentada na calçada. As pessoas passavam e admiravam ver uma criança tão pequena fazendo tricô. Tecia com muito prazer. Muitas vezes, quando o cachecol estava com mais de meio metro de comprimento ou quase acabando, percebia que no princípio havia deixado um ponto solto, então eu desmanchava até onde ele estava e começava tudo de novo. Lembro que eu refazia um cachecol até quatro vezes. Hoje, vejo que estava tecendo a trama da minha vida, aprendendo a me alinhar, a não deixar nada inacabado ou dissonante para trás, refazendo e resgatando sempre. 

Uma das maiores diversões da minha infância era ficar deitada na cama, de barriga para cima, olhando o ar. Só que eu via várias teias de luz que se movimentavam para baixo e para cima, como finos véus de organza finíssimos. Eu viajava... Esquecia de tudo e, em pouco tempo, eu também era as redes de luz, ficava assim por mais de uma hora. Meus pais entravam no quarto, não interrompiam e nunca me perguntaram nada. Penso que era porque eu não era uma criança isolada. Pelo contrário, era um foguete, como se diz em Minas, mas tinha meus momentos de quietude. Se fosse dentro dos padrões de comportamento atuais, talvez eu recebesse um diagnóstico de criança altista.

Hoje, compreendo que eu via, naquela época, a teia quântica ao vivo e a cores. Fiquei surpresa um dia ao comentar a minha experiência com uma amiguinha e ela me dizer que nunca havia visto o que eu estava descrevendo. Para mim, as redes de luz eram vistas por todos, como a água, o fogo, etc. Foi quando percebi que eu via coisas que as outras pessoas não viam. Mas isto não me causou conflito e nem confusão, aceitei o fato com naturalidade.

Ainda em Ouro Preto, nasceu minha irmãzinha Rosane, que era um botão de rosa, toda cor-de-rosa. Fiquei encantada, não me lembro de ter tido ciúmes, creio que meus pais me davam tanto amor que nem passou pela minha cabeça eles poderem amá-la mais do que a mim. Eu já sabia, naquela idade, ser o amor como uma fonte de água, que quanto mais você tira, mais brota e tem para todos. 

Quando tinha sete anos, nos mudamos para Santa Bárbara e fomos morar num casarão que havia sido a sede de uma antiga fazenda, tinha mais de vinte quartos, um pátio quadrado no centro, com canteiros em formas geométricas. Minha mãe cultivava flores lindas neste jardim: papoulas, dentes-de-leão, amores-perfeitos, ervilhas-cheirosas, cravíneas, um deslumbramento de perfumes e cores. Eu me divertia equilibrando nas bordas dos canteiros, percorrendo infindáveis vezes o triângulo, o círculo, o quadrado. Hoje, trabalho com a Geometria Sagrada que é a expressão máxima do Criador. Ao me recordar destes momentos, vejo a vida me preparando, desde muito cedo, para o meu trabalho de compartilhar tudo aquilo que considero precioso e curador. 

O quintal desta casa para mim era imenso, um universo cheio de árvores: goiabeiras, pessegueiros, mangueiras, pitangueiras, etc. Conhecia aquelas árvores como a palma da minha mão, achava linda a resina do pessegueiro, na sua textura especial, sua cor âmbar e sua transparência. As goiabeiras eram as minhas favoritas, tínhamos umas vinte e eu as conhecia muito bem, sabia a cor das goiabas e os pés que davam frutos mais doces. Tinha uma que era especial e seus galhos, bem no alto, formavam uma confortável cama, que poderia ser usada também como cadeira e mesa, onde eu passava a maior parte dos meus dias, estudando, olhando o céu, sonhando. Hoje sei que eu já meditava naquela goiabeira.

Uma tarde, quando observava o movimento e os formatos das nuvens, de repente eu já não via mais o céu e as nuvens, eu via uma cidade completa, ela tinha uma espécie de muralha em volta e um imenso portão de entrada e saída. Esta cidade era linda! Eu via as pessoas felizes, alegres, sadias, rindo, brincando, não tinha ninguém triste e nem doente. Tinha também muita diversão como teatro, cinema, música e dança. Não precisávamos de dinheiro, usávamos o sistema de trocas, as escolas eram alegres e cultivávamos a terra. Mas não eram todas as cidades que eram assim. Às vezes batiam no portão, pessoas tristes, doentes, nós as acolhíamos, cuidávamos delas e, em pouco tempo, elas tornavam felizes e sadias. Depois de ver tudo isto, o céu e as nuvens reapareceram. Foi o primeiro vislumbre do trabalho do Instituto Renascer da Consciência, desenvolvido hoje em Belo Horizonte, e que vem a ser uma ONG, reconhecida de utilidade pública, e tem como um de seus principais propósitos implantar e difundir uma cultura de paz. 

Depois destes labirintos que partiu da goiabeira e chegou ao projeto Hólon, vamos voltar à minha infância. Fui criada num contexto católico, devo muito do que sou hoje às freiras do Colégio Santa Marcelina, em Muriaé/MG, que cuidaram da minha educação me ensinando a desenvolver paciência, persistência, perseverança, através de trabalhos manuais, como bainha laçada, crivo, ponto cheio, ponto de cruz. Atividades estas que requerem plena atenção, temos que contar cada fio na bainha laçada, no crivo e no ponto de cruz. Isto desenvolve a acuidade visual e, consequentemente, começamos a ver mais detalhes o que leva a uma ampliação da consciência, abrindo mais nosso campo de percepção. 

Com as freiras também aprendi disciplina, organização e muitas outras coisas importantes e que lancei mão ao longo da vida. Se eu fosse criada num contexto espírita, eu seria uma médium, pois desde criança eu via e conversava com quem já tinha morrido. Eu era avisada pelas próprias pessoas que faleciam na família, antes da notícia chegar pelas vias normais. Muitas vezes, acompanhei em sonhos a passagem destas pessoas. 

Hoje, este aspecto do meu ser me ajuda muito no trabalho terapêutico, muitas vezes os sofrimentos e as dores dos meus clientes não são só deles, têm grande influência de pessoas que já fizeram a passagem. E se entrou em meu consultório, seja encarnado ou desencarnado, eu faço terapia. Os resultados têm sido surpreendentes, pessoas que tratavam de depressão grave há mais de cinco anos, em um mês estão bem, a depressão não era só delas, havia muita interferência de outros níveis de realidade.

Na minha infância, em decorrência desta minha característica, não compreendia a morte e tinha muito medo, não encontrando ninguém para me explicar, de maneira convincente, o que era a morte. Dei muito trabalho aos meus pais, indo até os doze anos de idade, quase todas as noites, para a cama deles com medo de assombração. Durante o dia, as pessoas que trabalhavam em nossa casa contavam casos de assombração e à noite eu via e conversava com elas. 

Ainda com doze anos, minha leitura preferida era a Enciclopédia Jackson, que tínhamos em casa. Eu a li toda, além de livros como Os Grandes Inventores da Humanidade, todos os livros do L. Rampa, além de outros. Gostava muito de ler uma revista, a Seleções. Lia histórias de pessoas que fundaram orfanatos e, já nesta idade, eu tomei uma decisão: - Se eu não me casar, vou fundar um orfanato. Eu me casei e fundei uma Casa Lar, juntamente com quatro casais amigos, cuidamos de doze crianças que retiramos da FEBEM e construímos um lar para elas. Onde duas senhoras (as tias) cuidavam delas e nos dávamos todo o suporte necessário. Uma destas crianças faleceu, a Sarinha, pois tinha uma doença grave congênita, outra não foi possível ficar conosco, pois tinha transtornos mentais sérios.  Quatro irmãozinhos de uma mesma mãe, mas de pais diferentes, foram adotados por dois casais de Turim, na Itália, e, atualmente, estão muito felizes. As famílias que os adotaram são de muitas posses e todos se tornaram pessoas de classe social alta. As outras seis, foram criadas por nós, fizeram primeira comunhão, casaram e estão adaptadas à sociedade, sendo pessoas de bem, cada uma levando sua vida. 

Como já disse, meu pai era bancário e era transferido, com freqüência, de uma cidade para outra pelo interior das Minas Gerais. Dos oito até aos quinze anos, quando vim para Belo Horizonte, morei em oito cidades. Em cada cidade que eu chegava era uma festa, a surpresa da casa onde iríamos morar, explorar seus porões misteriosos, seus quintais, suas flores. Eu me deleitava com tudo isto, observava as flores com atenção extrema, tenho fotografado na minha memória flores lindas: rosas brancas dobradas, cravos, dálias. As dálias... Que maravilha! Elas têm uma infinidade de formas, cores, espécies, só não têm perfume, mas isto é plenamente compensado pela beleza de suas formas e cores. 

Comecei a plantar vasinhos e cultivar flores o que até hoje me dá muito prazer. O conhecimento que tenho da natureza foi desenvolvido a partir das casas onde morei. E as frutas e flores do mato? Era outro universo, outras descobertas, as gabirobas, joás, o morango do mato, a bananinha do trevo, azedinha-azedinha. Eu provava de quase tudo, mas, hoje, acredito que já tenha vindo para esta vida com algum conhecimento anterior sobre ervas medicinais. Minha mãe contava que quando meu pai ou qualquer outra pessoa tinha problemas de dor de cabeça, dor de estomago e outros males menores, eu corria no quintal pegava algumas plantas para um chá, a forma de fazê-lo era amassando as folhas com água. A única pessoa que tinha coragem de tomar os meus chás era meu pai e diz minha mãe que a dor passava, até chegar ao ponto em que ele sempre me pedia um chá quando estava sentindo alguma coisa. 

Outra atividade que eu adorava fazer na infância e que é uma prática meditativa, mesmo que naquela época eu não soubesse o que era meditação, era, quando chovia, ir para a janela do meu quarto, no segundo andar da casa, e observar as gotas de chuva que deslizavam pelos fios de eletricidade. Eu acompanhava cada gota até onde minha vista alcançava e elas deslizavam, raramente caiam e tinham as cores do arco-íris. 

Desta forma passei minha infância muito integrada com a natureza. A adolescência foi chegando, trazendo com ela os namoros, os bailes. Eu adorava dançar e meus amigos também, organizávamos horas dançantes todas as noites, cada vez na casa de um. Tinha também os bailes oficiais, os footing na pracinha da cidade, todas as noites antes de ir dançar. As moças caminhavam numa direção e os rapazes na outra, circulando a praça. Assim ocorriam os flertes, olhares prolongados, cheios de emoções. 

Todas as cidades do interior de Minas tinham mais ou menos os mesmos hábitos. Cada ano, eu mudava de cidade, renovava minhas relações, despedia dos amigos e namorados. O grande desafio era me integrar com novos grupos de adolescentes, cultivar novas amizades, conquistar novos namorados, freqüentar uma nova escola. Esta forma de viver nunca foi problema para mim e agradeço a estas experiências que tive na adolescência, pois me levaram a lidar bem com perdas e ter desenvolvido habilidades de relacionar em grupo.

Minha vida atual é grupal, convivo com muitos grupos de pessoas, de profissões diferentes e interesses diversos. Além de atuar como terapeuta, preferencialmente, com grupos. Levo grupos pelo mundo a fora em lugares sagrados, dando um curso de Introdução à Visão Transpessoal do Mundo, abordando a mística dos lugares visitados, sua cultura, hábitos e fazendo práticas para a pessoa vivenciar sua multidimensionalidade. Já viajei com grupos pela Índia, Peru, Egito, Grécia, Turquia, Rússia, Israel, Jordânia, China, Tibet, Nepal, África do Sul. Tem sido uma atividade muito enriquecedora para mim e para todos os que caminham comigo nestes lugares plenos de energia do passado. A viagem é uma metáfora da vida, uma oportunidade de desenvolver a arte de viver em harmonia consigo, com os outros e com o universo. Todos os imprevistos, frustrações, alegrias, êxtases que a vida nos proporciona numa viagem vem em alta concentração. Somos peregrinos em busca do Lugar Sagrado, onde vamos reverenciar o Criador Supremo. Este lugar está fora e dentro de nós assim, a cada dia que passa, a nossa peregrinação se torna mais interessante.

Vida e Morte: Os Grandes Mistérios

O mistério da morte tem desafiado a humanidade, eu não sou exceção. Desde criança queria saber sobre a morte, sempre que morria uma pessoa nas cidades onde morava, não havia aula e toda a escola ia ao enterro. Não importava se conhecíamos ou não o falecido, se era rico ou pobre. O grupo escolar da cidade comparecia. É claro que o melhor da historia, naquela época, era não ter aula e o passeio. Eu também gostava disto, mas ficava muito intrigada com o morto, com a dor dos familiares. Observava que a dor da família era grande, às vezes em desespero, e o morto com expressão de felicidade e serenidade. Isto me intrigava.

Mais tarde, vim a descobrir que não eram todas as cidades do Estado que cultivavam este hábito, mas as que eu morei, todas elas eram assim, certamente não foi por acaso. Eu perguntava aos adultos sobre a morte e eles não sabiam me responder, nem meus professores. Mas uma coisa era certa, eu via que todos tinham medo dela, alguns nem queriam falar no assunto. Isto me influenciou e, apesar da expressão de felicidade dos mortos, eu passei a ter muito medo também. Para complicar mais ainda, eu sentia coisas estranhas quando estava quieta ou em cima da minha goiabeira ou acompanhando as gotas de chuva em seu deslizar pelos fios ou observando a teia de luz. A sensação era de que eu ia partir.

Não sabia para onde nem como, isto me assustava muito, fazia tanta força para sair daquele estado que chegava a suar. A vida foi passando, casei, tive filhos. Vivi a experiência de esposa, mãe, dona de casa, com dedicação exclusiva por cinco anos. Quando minha filha caçula tinha um ano, senti um impulso para ir além daqueles papéis, dar um passo maior. Com o apoio do meu esposo, decide fazer vestibular para Psicologia. Com três crianças, uma de quatro anos, outra de três e uma de um, só me restava levantar de madrugada para estudar algumas horas, estudava até as cinco horas da manhã e voltava para a cama. À noite freqüentava um cursinho preparatório. Dessa forma, ingressei na PUC Minas, iniciando minha vida acadêmica com o curso de Psicologia, em 1970.

No segundo ano já me movimentei e me propus a organizar um serviço de psicologia infantil no Hospital das Clinicas. Estudava muito sobre Desenvolvimento Infantil, Hospitalismo (doença causada pela hospitalização) e dava palestras para os médicos, formei uma equipe com os colegas de curso, contando sempre com a supervisão dos professores.

Depois do Hospital das Clinicas fui para a Santa Casa de Misericórdia, lá organizei o serviço de Psicologia Infantil, modifiquei o ambiente hospitalar, pedi às crianças que desenhassem cenas do lugar em que viviam, selecionei alguns desenhos, consegui pessoas para reproduziram estas cenas familiares para as crianças, que geralmente vinham do interior, nas paredes. Assim elas se sentiam mais em casa e acolhidas. Pintei no teto do berçário formas geométricas coloridas. Os bebês ficavam deitados e olhavam para o teto, assim eles eram estimulados. Organizei e dei treinamentos em desenvolvimento infantil. A coordenação desta equipe era minha e de uma colega, Gláucia Prosdócimo. Trabalhamos preparando crianças para cirurgia, com teatrinho de fantoches. Foi um trabalho muito especial. A criança nos ilumina e aquece os nossos corações. 

Mas tive muitas dificuldades também. Na primeira semana de trabalho, quando deparei com uma realidade que eu sabia existir, mas nunca tinha entrado em contato direto com ela, tive um choque emocional muito grande. Crianças morriam nos meus braços de desnutrição, como poderia conceber isto? Em uma semana emagreci dez quilos. Não desisti, tive muitos encontros de alma com estas crianças que partiam olhando para mim e eu no meu olhar, passava para elas todo o amor que eu tinha. Nestes momentos, estas crianças me falavam muito, eu compreendia a dor de suas almas e espero ter podido amenizar um pouco esta dor.

Entrei em crise existencial, e foi neste momento que me movi para fundar a Casa Lar Veredas. Já que eu não poderia socorrer todas as crianças do mundo, poderia socorrer doze. É muito pouco, mas foi o que dei conta de fazer juntamente com outras pessoas que compartilhavam os mesmos propósitos. 

Depois de formada, iniciei minha carreira profissional como psicóloga infantil. Fiquei pouco tempo nesta área. Era frustrante, as crianças não tinham problemas, mas sim os pais e estes não tinham a menor disposição para receber ajuda. O próximo caminho me levaria a atuar como terapeuta transpessoal. Em 1972, como relato a seguir, tive uma experiência muito forte que mudou minha vida e me direcionou para a Psicologia Transpessoal.

Desde a infância, de vez em quando, especialmente quando estava muito quieta, sentia algo que não conseguia identificar. Era uma sensação de que algo muito importante e grandioso ia acontecer e eu desconhecia o que seria.  Sentia medo e procurava sair da situação me mexendo, fazendo força para voltar a sentir o meu corpo, pois, às vezes, eu não conseguia senti-lo. Isto me cansava muito. Este fato ocorria esporadicamente, mas eu sempre procurava evitar que a experiência continuasse e sentia muito medo. Ao mesmo tempo, sentia muita curiosidade e medo da morte, sentimentos que estavam ligados ao medo de me entregar às sensações que experimentava e desconhecia. Não dava também maior importância a estas experiências, ia levando a minha vida e nunca comentei isto com ninguém, não porque fosse um segredo, eu não dava importância. 

Uma noite, no segundo ano de psicologia, depois de um dia daqueles, quando havia corrido atrás das crianças o dia todo e estava exausta, as coloquei na cama e me preparei para dormir. Nem bem havia deitado, a conhecida sensação que me causava medo apareceu. Como eu estava muito cansada, não consegui resistir e aconteceu o que eu temia: a experiência continuou. Eu saí do meu corpo e fui para o cosmo, o céu era azul anil e via muitas estrelas. Na minha frente, via uma enorme Luz Amarela, muito forte, que me atraia. Eu ia a toda velocidade em direção àquela luz, me sentia bem, não havia nem sinal de medo. Como sou curiosa, fui observar a minha forma, eu era uma bola de luz que girava sobre si mesma e ia em linha reta, a toda velocidade, em direção à luz amarela. Eu era como um cometa que deixava um rastro de luz. Percebi que ao meu lado tinham outras bolas de luz nas mesmas condições em que eu me encontrava. Neste momento, sentia muito bem estar, tudo com muita intensidade, não tenho palavras para explicar, recorro ao êxtase místico de Santa Tereza D’Ávila e São João da Cruz ou ao Nirvana dos Budistas. Compreendi que morte não existe, senti que eu era ao mesmo tempo eu, não perdi o sentido da individualidade, mas era também o céu azul, as outras bolas de luz, a própria luz amarela. Compreendi o sentido da Unidade, de que não estamos separados, todos somos um. “Eu sou você, você é eu, nos somos Deus”. Isto fazia sentido para mim como uma verdade incontestável. Desapeguei de tudo, dos entes queridos, das idéias, dos bens materiais. Eu já não era apegada, mas entendi que nada nos pertence, que todos somos filhos do mesmo pai. Depois disto, o amor que sinto por todos e por tudo não é diferente do amor que sinto pelos meus filhos e netos, não que o amor por eles diminuiu, mas sim porque o amor pelos outros aumentou. 

Depois do acontecido, com o passar do tempo, com a busca de entendimento pelo processo que vivi, vim saber que havia tido uma experiência cósmica. Esta experiência é descrita de diversas formas pelos terapeutas transpessoais, budistas e conhecedores do tema. Abaixo, apresentarei algumas definições sobre experiência e consciência cósmica.

Segundo Wany Senise, consciência cósmica é um estado superior ou ampliado de consciência. As pessoas capazes de atingi-la podem ter acesso a um conhecimento que transcende tudo aquilo que nossos cinco sentidos básicos podem perceber. Ela é procurada por todas as escolas místicas ou espiritualistas já que permitiria, a quem a experimenta, compreender o cosmos como uma unidade viva, onde desaparece o sentimento de dualidade, e onde presente, passado e futuro deixam de existir.                                                                                                                      

A experiência cósmica ou transcendental é de caráter subjetivo e de difícil comunicação. Utilizando descrições dessas vivências, a Psicologia Transpessoal procura fazer análise de conteúdo, estabelecendo critérios de identificação. Qualquer pessoa poderia distinguir a experiência cósmica de suas percepções habituais?  O que se engloba nesse conceito?

Sartori, Nirvana, Samadhi, estágio superior de consciência, experiência transpessoal, mística, transcendental, culminante, psicodélica são termos usados para relatar os mesmos tipos de vivência, muito embora possam designar graus diferentes do mesmo fenômeno. Tornaram-se comuns na linguagem dos cientistas de tendências mais liberais no âmbito da psicologia, psiquiatria e metapsiquiatria. 

 

Posso também citar meus mestre Pierre Weil que diz ser a Consciência Cósmica um tipo de experiência vivenciado por certas pessoas e tem como características principais:

- Percepção do cosmos como uma unidade viva, da qual se sentem parte integrante – desaparece o sentimento de dualidade;

- As dimensões de espaço e tempo são transcendidas;

- Sentido de sagrado;

- Sensação de que a vivência é mais real do que as quotidianas comuns;

- Completo desaparecimento do medo da morte, que é vista como uma passagem para outra dimensão de vida (adquire a certeza da eternidade);

- Mudanças radicais no sistema de valores seguido anteriormente.

Podem ocorrer, também, percepção de uma luz deslumbrante (iluminação) e sentimentos de profunda paz, plenitude e amor a todos os seres. Essas experiências têm valor terapêutico; o indivíduo modifica sua conduta de modo contínuo e permanente e seus valores se transformam adquirindo maior realce, para ele, os valores transcendentais, humanitários e de ordem superior. 

Naquela noite, em 1972, depois de um dia exaustivo, eu sabia que o que estava vivendo era verdadeiro e sagrado. Percebi a realidade em sua essência e a ilusão deste mundo que consideramos real. Estava muito bom, mas, de repente, tudo parou e eu me vi novamente no meu quarto, flutuando no teto. Vi meu corpo deitado na cama e ele não era eu, era como uma roupa. Tive muita pena dele, pensei: - Puxa vida! Tive um instrumento tão maravilhoso e eu não soube usá-lo, será que ainda dá tempo? Foi o último pensamento fora do corpo. Entrei no corpo e fiquei paralisada, primeiro, porque não queria voltar, estava muito boa a experiência, segundo, eu não estava entendendo nada. Naquela época, eu não sabia nada de desdobramento ou viagem astral, tudo era novo e real para mim.  Retornar à vida foi difícil, eu não via sentido em trabalhar, estudar, comer, me aprontar. Não falei nada com ninguém, pois tive a lucidez que seria difícil explicar o que vivi e poderia ser considerada louca.

Na época, eu fazia estágio em um hospital psiquiátrico e não me agradava a idéia de mudar de papel de estagiaria e passar a paciente. Eu tinha certeza absoluta que estava certa e que tudo o que vivi era verdadeiro. Por outro lado, todos os pacientes do hospital onde estagiava, tinham certeza absoluta que eles eram Jesus Cristo ou Napoleão. Hoje sei que eles estavam certos, eles estavam com a consciência ampliada e vivendo a unidade, onde somos um realmente com Jesus, com Napoleão, etc. 

Fui buscar ajuda na medicina, com o objetivo de levar a vida em frente, consultei clínicos gerais, neurologistas e o último foi um psiquiatra, que na época era meu professor e em quem eu confiava. Para ele eu contei a experiência, ele seguia uma linha psicanalítica. Ele me ouviu, não fez nenhum comentário, voltei várias vezes e percebia que ele estava testando minha memória, raciocínio, etc. Depois de umas cinco sessões, ele me disse o seguinte:

- Gislaine, posso garantir que de doença mental você não tem nada, você está muito bem. Estou diante de algo que desconheço e por isto não vou opinar. 

Agradeço hoje a sua lucidez. Saí então em busca de uma explicação nos livros. Tinha sede de saber, entrava nas livrarias e pegava os livros que me atraiam, naquela época não existiam livros de desdobramento, morte clinica, experiências transpessoais nas livrarias tradicionais. Finalmente encontrei um livro “Auto Biografia de um Yogue Contemporâneo” de Yogananda, que descrevia uma experiência vivida por ele igual a minha. Fui atrás de um professor de yoga e aí fui compreendendo melhor as coisas. O que tive foi uma experiência cósmica. Hoje, temos vários livros sobre este tema, inclusive um do Professor Pierre Weil, intitulado A Experiência Cósmica.

 

Psicologia Transpessoal

Depois desta experiência cósmica, fiz um curso de especialização em Psicologia Transpessoal com o Dr. Leo Mattos, pelo qual tenho muita gratidão por tudo que aprendi com ele. Este ramo da Psicologia estuda a consciência. Até pouco tempo atrás, percebia-se o mundo através de uma visão mecanicista. Era aceita a descrição do universo proposta por Newton, com seus conceitos de tridimensionalidade, tempo e espaço absolutos, causalidade e determinismo.

Com os avanços na área da física moderna durante o do século passado, a Teoria Quântica provocou mudanças profundas nos conceitos de espaço, tempo, matéria, causa e efeito, vindo a mostrar uma outra dimensão de realidade, diferente daquela que vivemos no nosso dia-a-dia. Na visão de realidade da Física Moderna, o universo se apresenta como uma complicada teia de inter-relações entre as partes e o todo. Mudando o nível de consciência é possível perceber outras dimensões de realidade. 

 

A Psicologia Transpessoal, desenvolveu-se com base nestes novos conceitos da Física Quântica, na psicologia de C. Jung e na psicologia budista tibetana, além do próprio Movimento Transpessoal deflagrado entre as décadas de 60 e 70. Ela estuda, experiencialmente, e descreve os diferentes estados de consciência pelos quais passamos e, entre os quais, existe um véu. Como, por exemplo, sono profundo, sonho relax, vigília, etc. Há também o estudo dos estados alterados de consciência que transcendem ao ego. A visão de mundo da Psicologia Transpessoal não é dual, e sim, de um todo integrado em harmonia, tudo vibra em ressonância, tudo é energia, não há separação. Sua utilização como instrumento terapêutico, leva a pessoa a trabalhar suas dificuldades em diversos níveis, experimentando outros estados de consciência que lhe darão condições de perceber que ele não é só corpo, mente e emoções, entrando em contato com uma realidade mais sutil, não perceptível pelos cinco sentidos. 

 

Os métodos próprios da Psicologia Transpessoal são: 

•    Trabalho com Morte e Renascimento do Ego;

•    Trabalho com pacientes que apresentam tendências a suicídio;

•    Pesquisas de estados alternados de consciência, com uso terapêutico, inclusive para o tratamento de toxicômanos;

•    Regressão e Renascimento;

•    Meditação;

•    Utilizamos também: meditação, trabalhos com sonhos, Visualização Criativa, Jornadas de Fantasia.

 

Em 1983, fundei, juntamente com outras pessoas, a Fazenda Renascer de Recuperação de Dependentes Químicos, utilizando a Psicologia Transpessoal para ajudar jovens a se libertarem das drogas e do álcool. A Psicologia Transpessoal acolhe e ajuda, terapeuticamente, aos dependentes químicos a integrar suas vivências no dia-a-dia. A droga altera a consciência, a abordagem Transpessoal compreende a linguagem do dependente, podendo assim ajudá-lo de uma forma mais eficiente. A Fazenda funciona até hoje, em Pedro Leopoldo, cidade próxima a Belo Horizonte, utilizando a laborterapia, a meditação e a psicoterapia como tripé para a recuperação de dependentes químicos.

 

Casos Clínicos 

Pratico a Psicologia Transpessoal há muitos anos e ao caminhar fui adquirindo uma forma própria de atuar como terapeuta. Considero que terapeuta é o que facilita a cura e desperta o terapeuta interior que existe dentro de cada um de nós e que é o melhor terapeuta do mundo para cada um. 

A terapia é um processo gradual de cura da alma, cuja dor e sofrimento têm suas origens na humanidade, na ancestralidade. Se todos somos um, a dor do mundo é a minha dor, se eu me curo, estou curando o mundo. Esta é a nossa maior missão: sairmos do sofrimento e da dor e passarmos para a dimensão de uma humanidade feliz, cheia de Paz e Alegria, é este o grande desafio de todos nós. 

Nesta longa jornada, muito tenho aprendido. Creio que o fator que facilita a cura é a relação terapêutica. O vínculo terapeuta-paciente, a meu ver, é o vínculo mais profundo que existe, pois é nesta relação que a pessoa pode se mostrar por inteiro, com a sua Luz e a sua Sombra, sem medo de não ser aceita, sem medo da rejeição, tendo a certeza de que ela vai ser acolhida e ajudada. Com os entes queridos, esta relação totalmente aberta, às vezes, é difícil, pois as pessoas têm medo de se abrirem e perderem o amor do próximo. 

Quando relacionamos neste nível, é inevitável que a relação seja uma relação de amor incondicional. As técnicas, a habilidade e talento do terapeuta, seu trabalho interno, tudo isto é importante, mas o fator primordial é o amor incondicional. Sinto-me uma pessoa muito privilegiada por muitos motivos, especialmente por poder estar ao lado das pessoas em momentos de dor profunda e caminhar com elas, lado a lado, e ter a alegria de ver que elas conseguem transformar esta dor em sabedoria e numa maior compreensão da vida. Vou citar aqui quatro casos entre os muitos que acompanhei em minha trajetória como terapeuta transpessoal.

O primeiro, foi um rapaz inteligente que tinha sérios problemas de relacionamento com pai x mãe, o que o levou a ter pânico de ser homossexual. Além de apresentar uma estrutura frágil de personalidade, com traços de distúrbios mentais mais sérios. Ele tinha consciência disto e dizia para mim que ele tinha ímpetos de agredir fisicamente as pessoas, mas que fazia muito esforço para se controlar. Palavras dele: - Graças a Deus nunca feri ninguém. Num contexto tradicional, ele teria recebido um diagnóstico que justificaria uma internação. Daí o risco e a responsabilidade de se trabalhar com ele.

Depois de dois anos de terapia, quando trabalhamos muito com Mandalas, Sonhos e Meditação, ele se envolveu com um grupo budista. E, assim, direcionou sua energia de vida que estava muito mal direcionada para a meditação e a espiritualidade. Isto já tem dez anos, hoje é uma pessoa sadia, feliz, continua integrado ao budismo, chegando a ocupar posições de destaque dentro desta linha espiritual. 

Um dos casos mais desafiadores que eu tive e que testou profundamente o meu amor incondicional foi o caso de um homem de 35 anos que procurou a terapia com a queixa de que ele tinha dificuldade de ter relacionamento afetivo duradouro. No decorrer da terapia, começou a falar naturalmente que abusava sexualmente de crianças, com mais ou menos sete anos de idade ou até menos. Geralmente, eram crianças próximas, filhas de familiares ou amigos. Ele não entendia porque os pais ficavam com tanta raiva dele, porque ele dizia que as menininhas gostavam. Como aceitar isto incondicionalmente? Se eu não aceitasse, sabia que ao menor sinal de desaprovação ele sairia da terapia e certamente continuaria com aquele comportamento.  Tratava-se de uma pessoa com muitos potenciais, não era uma pessoa ruim. Aparentava não ter consciência de seus atos, um caso bem patológico e com prognóstico duvidoso. 

Foi na meditação que consegui me posicionar. Decidi levar em frente a terapia, mantendo uma atitude neutra diante de seus relatos e aprofundando o trabalho terapêutico. Eu imaginava que a razão de tudo aquilo estava na infância, em sua criança ferida. Numa regressão, ele chegou aos três anos de idade e todo o material reprimido veio à consciência. Ele foi abusado sexualmente pelo pai dos três aos cinco anos de idade e não tinha a menor lembrança disto. Foi a maior surpresa para ele. Assim depois desta tomada de consciência, acabou compreendendo tudo, parou com o comportamento de molestar as crianças, deu novo rumo a sua vida. Curou sua alma e ainda fizemos um trabalho profundo de perdão com estas crianças que sofreram o abuso sexual. 

Um outro caso foi encaminhado para mim, por um otorrino, um homem com 42 anos de idade, e tinha como queixa uma coriza que, constantemente, há muitos anos (ele não sabia precisar quantos exatamente), muitas vezes o impedia de ir trabalhar. Ele era uma pessoa muito bem sucedida profissionalmente, funcionário de uma empresa da área de computação. Casado há dezessete anos, não tinha filhos, seu casamento, assim como sua vida profissional e pessoal, era sem problemas. Era uma pessoa consciente e sabia administrar muito bem a sua vida. Era também esportista e tinha uma vida rica em lazer. A única coisa que o incomodava era esta coriza constante. Já havia procurado todos os recursos disponíveis dentro da medicina e a psicoterapia, para ele, era seu último recurso. Não conseguíamos encontrar a causa daquele sintoma. Possuía uma história de vida bem sucedida, com muitas conquistas em todas as áreas. Em uma de nossas sessões, relatou que aos três anos perdeu a mãe, mas que isto não o afetou, pois foi logo morar numa fazenda com a avó e não se lembrava de nada deste período, não sabia nem a causa da morte da mãe. Nunca se preocupou em saber. Após três anos, a avó também veio a falecer, aí ele foi morar de novo com sua família e sua irmã mais velha passou a cuidar dele sem problemas. Dizia não ter dificuldades em lidar com a morte da avó, que apesar de ter sentido a morte da avó, isto não teve para ele maiores conseqüências. Lembrava pouco desta fase também. No decorrer da terapia, através dos sonhos, começaram a aparecer sentimentos de muito sofrimento e dor em relação à perda da mãe e da avó. Ele começou a chorar e chorar, sessões inteiras, às vezes, usava uma caixa de lenços toda em uma sessão. Todo o conteúdo reprimido do inconsciente veio à tona. Acabou fechando s questões com a mãe e com a avó e a coriza parou. Na realidade, ele chorava há muito tempo sem saber que estava chorando.

Para a Psicologia Transpessoal, os sonhos são portas para outros níveis de consciência e o trabalho com os sonhos facilita ter acesso a estes outros níveis da realidade. Além do inconsciente que foi acessado, ele experimentou também outros níveis de consciência com a mãe e a avó através dos sonhos.

O último caso a ser relatado é muito especial e demonstra como é importante e rico o trabalho com pessoas que estão prestes a fazer a transição para outra dimensão de realidade. Esta paciente, de 52 anos de idade, tinha um câncer generalizado que afetou muito sua coluna vertebral. Ela ficou impossibilitada de andar, ficava deitada todo o tempo. Fomos trabalhando os seus medos e suas dúvidas, enfim, preparando-a para a passagem. Tratava-se de uma pessoa muito especial, aos 25 anos já era uma empresária bem sucedida e o mundo era pequena para ela. Costumava viajar pelo mundo inteiro a negócios. De repente, estava em cima de uma cama e um dia me disse: - Hoje não sei nem o que se passa na cozinha da minha casa, aos 30 anos eu tinha a liberdade de ir e vir aonde bem quisesse, mas não trocaria a cabeça que tenho agora, mesmo com a limitação física, pela liberdade da minha juventude.

Estávamos na véspera de seu aniversário, mesmo na cama ela não parou de trabalhar, pelo telefone, ela se comunicava com as pessoas e as mobilizava para ajudar obras sociais. Neste dia, ela manifestou o desejo de dar uma grande festa, ligou para todos os seus amigos e parentes, para as pessoas que ela queria bem, mas não via fazia tempos, convidando a todos para comemorar seu aniversário. A festa estava marcada para as dezesseis horas, do dia de seu aniversário. Ela faleceu às oito horas da manhã. A família decidiu não avisar ninguém, ela foi velada em casa e os amigos foram chegando, segundo o seu desejo, para a grande celebração do seu renascimento.

Trabalho com Tanatologia, acompanhando pessoas na difícil arte da Transição. O meu trabalho não termina quando a pessoa faz a transição. Para a Psicologia Transpessoal, a morte é um estado de consciência, é a transição para outro estado de consciência e não o fim, continuo acompanhando a pessoa no seu caminho em outras dimensões. Faço isto mais ou menos como os Tibetanos o fazem, mentalmente, durante quarenta dias, converso com a pessoa até sentir que ela está bem.

No decorrer da minha vida como terapeuta, percebi que as pessoas que tinham muita dificuldade com a morte, geralmente, presenciaram alguma morte, de um ente querido ou não, na infância e não foram orientadas corretamente. Eu mesma, como já disse, passei por este processo. Foi em decorrência desta minha observação, com o propósito de informar à criança sobre a vida e a morte que escrevi dois livros de preparação para a vida e a morte - para crianças de 03 a 90 anos – que são: Pingo de Luz e De Volta a Casa do Pai.

 

Conclusão:

Hoje, considero que a pessoa para ser feliz e ter paz no coração (e é o que as pessoas buscam num processo terapêutico), ela tem que estar atendendo ao propósito de sua alma e, para isto, tem que saber qual é este propósito, o que significa saber o sentido da vida. 

A vida é movimento, dança, música, beleza, se resistirmos às mudanças, se nadarmos contra a correnteza, geramos sofrimento e dor. Quem facilita a cura deve guiar a pessoa pelos caminhos do autoconhecimento, com a libertação do paciente de traumas e memórias negativas. É importante uma ampliação da consciência para compreender que mundo é este onde vivemos e como fazer para vivermos em harmonia, sem adoecer, num mundo caótico e violento. Só compreendendo um pouco mais as leis que regem o universo é que nos fortalecemos para enfrentar os desafios do dia-a-dia. 

Através de uma maior compreensão das Leis que regem o Universo e de uma Consciência ampliada do mundo; de suas realidades sutis e concretas; do aprendizado constante de como lidar com as emoções; da importância de cuidar dos campos vibracionais, especialmente do corpo, a pessoa consegue a Paz tão almejada.

Atualmente, trabalho com Terapia Evolutiva, ajudando as pessoas a ampliarem a consciência, a terem uma visão de mundo mais real, menos distorcida pelos nossos condicionamentos. É importante o trabalho com a mente, o nosso padrão mental, que geralmente é familiar, determina nossa visão de mundo e se for uma visão negativa, certamente, a pessoa vai gerar sofrimento e dor. 

Esta terapia não tem nada de novo, pelo contrário, estamos resgatando a sabedoria dos povos antigos, como os Incas, os Egípcios, os Gregos e tantos outros que tinham uma visão de mundo como a Física Moderna tem identificado hoje. Estamos vivendo momentos muito especiais onde o paradoxo impera, vemos amor e violência, esperança e descrença andando, lado a lado, juntos. Enfim, estamos caminhando para uma mudança planetária muito profunda. 

Sinto que a nova humanidade vem surgindo. Creio que se o mundo chegou ao ponto que está, foi por falta de conhecimento do ser humano. Portanto, a solução está na mente do homem. Só com um trabalho de despertar da consciência poderemos mudar o mundo, primeiro, mudando a nós mesmos, depois, assumindo o nosso papel de co-criadores do universo. 

Chegará o dia que não serão mais necessários terapeutas, médicos, pois a humanidade irá passar de uma humanidade doente para uma humanidade feliz e construir um mundo de Paz e Harmonia. 

 

Psicologia Transpessoal tem como foco de estudo trabalho a consciência e os vários estados desta pelos quais passamos (sono, sonho, vigília, coma, morte, visões, premonições, etc.). 

Livros citados:

D’ASSUMPÇÃO, Gislaine. De volta a Casa do Pai. 1ª ed. Petrópolis: Vozes, 1989.

D’ASSUMPÇÃO, Gislaine. Pingo de Luz. Uma História sobre a Vida e a Morte para crianças de 3 a 80 anos. 1ª ed. Petrópolis: Vozes, 1983.

WEIL, Pierre. Consciência Cósmica.Petrópolis: Ed.Vozes, 1979.

YOGANANDA, Paramahansa. Autobiografia de um yogue contemporâneo. São Paulo: Summus Editorial, 1976.